Faz pouco tempo, em um dia desses, eu assisti pela enésima vez ao filme: “Noite Vazia”, do diretor Walter Hugo Khouri, sob uma reprise proporcionada através de um canal pago, especializado em exibir filmes produzidos pelo cinema brasileiro.
Eu possuo uma cópia dessa obra à minha disposição, devidamente alojada na minha estante de DVD’s, mas não resisti ao impulso em vislumbrar, novamente, a arte do velho Khouri, em meio a uma exibição televisiva, madrugada adentro.
Sou muito fã da obra de Walter Hugo Khouri em torno do seu cinema sob forte influência europeia, no bom sentido do termo. A despeito de seus detratores (e são muitos, de uma forma injusta, eu diria), eu aprecio muito o seu estilo a não demarcar fronteiras, sem apegos regionalistas, ou maneirismos e clichês tupiniquins tão usados por outros diretores nacionais, seus contemporâneos.
Nada contra tantos diretores que usam e abusam do regionalismo e, aliás, é uma perspectiva válida e, em muitos casos, se fez notável, como um trunfo para tais diretores que investiram fortemente em tal prerrogativa para forjar uma tendência.
Walter Hugo Khouri; Antônio Meliande; Clóvis Lourenço.
No entanto, no caso de Walter Hugo Khouri, a sua opção por centrar a sua abordagem em outros termos, ou seja, a se valer das sutilezas observadas na psiquê humana, fez com que as suas histórias não dependessem da ambientação regional sob nenhum aspecto e, nesse sentido, eu enxergo tal recurso como um mérito, ao fazer da obra desse diretor como algo universal e, assim, a extrapolar a fronteira cultural regional.
A falar sobre o filme, é extraordinária a abordagem a denotar o tédio dos dois personagens principais, Luizinho e Nelson (interpretados por Mário Benvenutti e Gabriele Tinti, respectivamente), a vagarem como dois zumbis hedonistas pelas casas noturnas de uma São Paulo que começava a se insinuar cosmopolita ali entre o final dos anos cinquenta e início da década de sessenta (caso da ambientação dessa história), ou seja, esse é um dos pontos altos do filme.
Mas claro que o filme possui mais atrativos, como, por exemplo: o aprofundamento da percepção sobre o vazio enfrentado pelos personagens masculinos, mediante o encontro com duas prostitutas (Mara e Regina, interpretadas por Norma Benguell e Odete Lara, nesta ordem), que certamente reforça o estereótipo do caos existencial vivido pelos dois homens.
Nos enquadramentos propostos por Khouri, tal nuance é bastante invasiva a se realçar essa característica.
Neste caso, os diálogos, muitas vezes ríspidos entre os quatro personagens, contrastam-se com certos climas “Bergneanos” no tocante às cenas pautadas com pesadas pausas de silêncio enigmático, demarcadas através de planos longos.
Como um eco da escola “Nouvelle Vague”, observa-se também um certo toque francês na abordagem, principalmente nas cenas em que são mostradas as andanças dos dois amigos pela noite de São Paulo, a se revelar uma abordagem urbana, frenética, certamente, no entanto, a trazer em seu bojo uma certa crueza urbana em frontal oposição a qualquer esperança de que houvesse uma gota de humanidade no âmago de tais personagens tão vazios, de fato, como estabelece o título do filme.
1) O Jazz, que norteou sempre a trilha sonora de suas obras.
2) Muitas referências às artes plásticas (Khouri sempre fazia questão de inserir algum elemento nesse sentido, nem que fosse de uma forma sutil, como um livro de René Magritte jogado despretensiosamente sob uma poltrona, em uma panorâmica de câmera ou algo do gênero).
3) E o forte apelo erótico, sem vulgaridade, é um fato, porém, pelo viés da sutileza que esbarra na psicologia analítica do comportamento humano (olhe a influência do cineasta Ingmar Bergman aí de novo, como algo salutar ao cinema de Khouri).
E para encerrar, muito me impressiona os minutos finais do filme, com a melancólica saída de cena das prostitutas, deixadas na Praça Roosevelt, quando esta ainda abrigava um pátio de estacionamento, repleto por automóveis típicos dessa época, tais como: Gordini, Aero Willys, “fuscas” da Volkswagen e muitos DKW’s, naquele longínquo ano de 1964.
E, neste caso, torna-se mais melancólica ainda a despedida dos amigos, durante um silencioso trajeto empreendido pela Av. 9 de julho, diante de um amanhecer gélido e cheio de desesperança, após uma “Noite Vazia”, de fato!
Assim se encerrou não apenas a noitada a mais na vida vazia desses rapazes, para se realçar subliminarmente uma faceta muito marcante que é impingida enquanto uma mentalidade enraizada na sociedade de consumo, quando as pessoas são levadas a acreditarem que a acumulação desenfreada de recursos, fruto do esforço de trabalho, resulta na possibilidade da busca pelo prazer efêmero, tão somente.
Trata-se de uma reflexão e tanto em torno do vazio existencial absoluto a ser explicado por variantes as mais expressivas nos estudos sociais, em geral, e também pela psicanálise/psicologia, certamente.
Cabe destacar a boa atuação do quarteto de atores protagonistas, boa trilha sonora, fotografia charmosa em P&B (apesar das suas dificuldades inerentes a produção nacional e ainda mais naquela época), e sobretudo pela direção de Walter Hugo Khouri, altamente personalizada, apesar dos seus detratores o acusarem de ser um mero plagiador de diretores europeus, Ingmar Bergman, sobretudo, mas que no cômputo geral, houve uma avaliação precipitada da parte dessas pessoas a meu ver, pois, Khouri certamente forjou o seu estilo pessoal e bem delineado.
E a se pensar na peça cinematográfica, reputo ser “Noite Vazia” como uma das principais páginas já escritas na história do cinema brasileiro.
Assista abaixo ao filme: “Noite Vazia”, através do canal de YouTube: “Oldbrcinema”, sobre o qual eu agradeço e recomendo aos leitores interessados na produção cinematográfica nacional.
Walter Hugo Khouri foi um excepcional diretor, realizou 25 longas-metragens. Os filmes mostram personagens que buscam sentido para a existência angustiante. Khouri conquistou vários prêmios nacionais e internacionais. Infelizmente a vida de muitas pessoas hoje em dia se assemelha muito como você mencionou, realçar subliminarmente uma faceta muito marcante que é impingida enquanto uma mentalidade enraizada na sociedade de consumo, quando as pessoas são levadas a acreditarem que a acumulação desenfreada de recursos, fruto do esforço de trabalho, resulta na possibilidade da busca pelo prazer efêmero, tão somente. Trata-se realmente de uma reflexão e tanto em torno do vazio existencial absoluto a ser explicado por variantes as mais expressivas nos estudos sociais, em geral, e também pela psicanálise/psicologia, certamente. Estimo sucessos a você Luiz Domingues!
Walter Hugo Khouri foi um excepcional diretor, realizou 25 longas-metragens. Os filmes mostram personagens que buscam sentido para a existência angustiante. Khouri conquistou vários prêmios nacionais e internacionais. Infelizmente a vida de muitas pessoas hoje em dia se assemelha muito como você mencionou, realçar subliminarmente uma faceta muito marcante que é impingida enquanto uma mentalidade enraizada na sociedade de consumo, quando as pessoas são levadas a acreditarem que a acumulação desenfreada de recursos, fruto do esforço de trabalho, resulta na possibilidade da busca pelo prazer efêmero, tão somente. Trata-se realmente de uma reflexão e tanto em torno do vazio existencial absoluto a ser explicado por variantes as mais expressivas nos estudos sociais, em geral, e também pela psicanálise/psicologia, certamente. Estimo sucessos a você Luiz Domingues!