Por Luiz Domingues
Em uma sociedade agressiva como a em que vivemos, múltiplos são os perigos que nos rodeia. Violência; selvageria no trânsito; golpistas por todos os lados e descaso do poder público, normalmente figuram entre as principais preocupações do homem comum.
E entre tantas possibilidades perigosas, existe uma em que dificilmente levamos em conta, mas que pode acontecer para qualquer um de nós, quando menos se espera. Pois é, e se você, leitor, for um dia confundido com um bandido, e uma testemunha afirmar categoricamente que o viu a praticar um crime, qual seria a sua reação?
Esse lidar com o imponderável em cada segundo, em cada esquina, sempre fascinou o diretor britânico, Alfred Hitchcock, em toda a sua carreira. No entanto, em meio a sua filmografia, ele nunca tratou o tema de uma maneira tão explícita, como em: “The Wrong Man” (“O Homem Errado”, em português), lançado em 1956. Nessa obra, o velho Al tratou da história de um homem honesto, pai de família honrado e que, sob uma infeliz coincidência, foi confundido com um assaltante.
Atônito com a acusação, é preso e aguarda o julgamento, sob angústia e profunda perplexidade. O filme mostra a sua saga infernal em obter provas de que vem a ser mera vítima de uma infeliz semelhança, mas claro, provar isso às autoridades, acostumadas a lidar com bandidos dissimulados, não é nada fácil.
Baseado em uma história verídica e publicada em livro (“The True History of Christopher Emmanuel Balestrero”, de Maxwell Anderson), Hitchcock também abriu um precedente nesse caso, pois geralmente ele gostava de adaptar romances policiais de ficção. O excelente ator, Henry Fonda, vive : “Manny Balestrero”. Trata-se de um pai de família honesto, esforçado e trabalhador, que ganha a vida como músico, a tocar em um pequeno combo de Jazz, toda noite em um nigth-club.
Nesse ponto, a realidade de Balestrero foi generosa como inspiração, pois certamente a ideia de um músico de vida noturna, mas que tem responsabilidade familiar exemplar, mostra-se como uma bela dicotomia.
Manny vive com a esposa, Rose Balestrero (Vera Miles), e com os dois filhos do casal. Além deles, também mora na mesma residência, a mãe italiana de Manny, identificada no filme apenas como: “Mamma Balestrero (Esther Minciotti). O catolicismo da família é exaltado por Hitchcock, sutilmente em tomadas ágeis, a mostrar o desespero que se mescla à fé, em forma de velas acesas, promessas, crucifixos, altares com estátuas de santos católicos e Jesus Cristo etc. Somente Deus poderia ajudar a família Balestrero?
Entra em cena a figura do advogado, Frank O’Connor (Anthony Quayle) e auxiliado pela esposa de Balestrero, saem em campo desesperadamente à cata de provas, a buscar um álibi salvador.
A família, contudo, tem parcos recursos e a esposa entra em profunda depressão, por não enxergar perspectiva real para salvar o seu marido de uma certeira condenação.
Um fato inusitado ocorre durante o julgamento, que por conta disso é anulado e esse tempo para que ocorresse um novo julgamento propiciou uma reviravolta, quando o verdadeiro assaltante foi preso a roubar uma mercearia e a vítima do primeiro assalto que acusara inicialmente Balestrero, sob uma acusação equivocada, refaz o seu testemunho. Finalmente, Manny Balestrero é inocentado, mas o prejuízo moral é incalculável, com a família a mostrar-se em frangalhos. A esposa de Balestrero está internada, sob estado catatônico, de uma forma desoladora.
Se fosse ficção, teria sido um final dramático, que Hitchcock não hesitaria em usar pura e simplesmente, mas como se tratou de uma história real, ele deixou uma informação adicional nos caracteres, onde anunciou que após dois anos, Rose Balestrero teve alta e a família pode enfim retomar a sua vida normal.
“The Wrong Man” é um impressionante filme sobre a injustiça. O sentimento de quem o assiste resume-se em um nó na garganta, a produzir, concomitantemente, um aperto no estômago.
Assim como o filme, “Saboteur“, que eu comentei no Blog anteriormente, este também não é citado normalmente entre os mais famosos, nas listas elaboradas por críticos e fãs de Hitchcock.
Contudo, igualmente em relação a outro grande trabalho seu, “Saboteur”, trata-se de um belíssimo trabalho do mestre, apesar dessa dose de esquecimento da parte de críticos profissionais e fãs em geral de sua filmografia.